quinta-feira, 29 de março de 2012

A “Primavera Árabe”

Desde muitos anos o Oriente Médio e alguns países do norte da África se mostram como uma região de constantes conflitos sejam eles étnicos, religiosos ou políticos. O fato é que o mundo árabe-mulçumano se desenvolveu muito nas últimas duas décadas politicamente, principalmente quando se diz respeito à consciência e práticas políticas, porém como contra peso ainda é muito forte a presença de grupos tradicionalistas e radicais; o que causa uma grande instabilidade interna. As evoluções tecnológicas, sociais, econômicas, políticas e culturais vividas por todo o mundo, afetaram em muito os países árabes, pois a maioria deles possuía uma história de dominação autoritária e militar de muitos anos, além de possuírem um vinculo forte entre religião e o Estado.
A falta de participação popular nos Estados Árabes, mesmo que a princípio esses fossem dados como democracias, fez com que a população, em especial os jovens, aprimorassem sua capacidade de análise crítica e contestação aos governos. O desemprego, a precariedade das condições sociais, e até mesmo a fome, levaram os jovens a adotar uma posição fora dos Estados islâmicos, uma posição que poderia ser considerada até mesmo laica e cosmopolita, graças ao fácil contato com o mundo ocidental proporcionado pelos meios de comunicação.
Os movimentos, que aparecem hoje em relação à autoridade e mentalidade dos atuais dirigentes árabes, são consequências de condições miseráveis de vida e de desemprego, de crises políticas e econômicas, e da busca por um pensamento livre.
Todo esse histórico, fez surgir em 2010 uma série de revoltas civis contra o governo dos então atuais dirigentes árabes, o que levou a uma enorme onda de violência e vandalismo nas cidades foco das revoltas. Essas manifestações também questionavam a intensa intervenção imperialista de alguns países ocidentais devido à forte exploração de petróleo e gás natural. Apesar de terem como objetivo o desenvolvimento independente dos países e uma maior participação do povo nas decisões políticas, os revolucionários vem causando muita destruição em seus países, pois como dito anteriormente, eles se veem em choques com grupos tradicionalistas radicais, aliados aos governos ditatoriais. Essa onda de violência e destruição acaba desacelerando o processo de reconstrução e reestruturação política do país.
Apesar de essas manifestações apresentarem um fundamento glorioso de libertação da população, elas também representam um risco grande a todos esses países. Os Estados árabes são fundamentados em uma política totalmente imersa e justificada por questões religiosas, e os atuais governantes árabes apesar de apresentarem uma política ditatorial, mantiveram os Estados em atividade no âmbito internacional. Essa luta por uma democracia inalienável, exercida pela vontade geral, pode trazer aos árabes certa desestruturação do Estado, tanto interna quando externamente. As revoltas e a tomada de poder pelos rebeldes, a “ajuda” financeira de outros países, sempre lhes impondo condições sócio-estruturais muitas vezes difíceis de suportar. Esse processo vem acontecendo muito rápido ao passo que deveria seguir um tempo natural, para que o Estado consiga suportar todas essas mudanças. O mundo árabe encontra-se diante de uma grande dicotomia: formar o mais rápido possível, estruturas capazes de atingir um sentido de Estado Democrático sem causar fortes impactos na estrutura do Estado, procurando evitar estagnações ou falência. A Tunísia, de onde surgiu toda essa onda de manifestações, e o Egito apesar de terem apresentado ferramentas, tradições e personalidades capazes ter prosseguido com o movimento, e de acelerar seu ritmo; quando alcançaram seu objetivo, o poder foi assumido por pessoas que, ou participavam do antigo regime, ou não se renderam totalmente aos ideais da maioria rebelde. Já o Iraque, o Líbano, a Jordânia e alguns outros países onde as manifestações continuam presentes, por motivos socioeconômicos e culturais, os manifestantes vivem contradições que desaceleram o movimento.  A Síria e a Líbia envolveram movimentos mais violentos, verdadeiras guerras civis; o que de certo modo prejudicou mais ainda o alcance dos objetivos da manifestação, no caso da Síria a reações violenta ainda se estendem, e a intervenção estrangeira tem sido intensa.
Além da velocidade com que os fatos vêm acontecendo, outros dois fatores que preocupam os observadores são: a influência do Islã e o apoio com capital estrangeiro. O primeiro oferece um risco de regresso a um Estado de soberania teocrática, muitos temem que com o enfraquecimento da sociedade devido aos embates, a soberania da religião volte a prevalecer sobre a soberania do Estado. Quanto à ajuda estrangeira, a questão é saber quais serão as conseqüências dessa ajuda futuramente, se não existem interesses econômicos e como isso será cobrado futuramente. Será que os países do ocidente manterão seus votos de ajuda e apoio aos rebeldes? Na verdade os países árabes enfrentam um momento muito difícil onde a vontade de libertação e autodeterminação contrasta com as condições de continuarem soberanos e ativos tanto interna quanto externamente.
O que podemos perceber é que apesar de ser tratada como um evento único, a “Primavera Árabe” possui suas particularidades em cada país e também em cada momento durante toda a evolução das manifestações. A determinação e a união das pessoas farão com que sejam alcançados os objetivos, porém a democratização e a busca por um Estado laico se darão de forma lenta, à medida que a estrutura do próprio Estado se molde a essas mudanças. Mesmo assim esse evento demonstra um grande progresso das comunidades árabes e influenciará o mundo por alguns anos, tanto no âmbito político abordando questões como a justificativa e legitimidade do Estado, quanto no âmbito econômico no que se refere aos interesses dos grupos petrolíferos.

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